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Brutalidade

Autor - Amélia de Fátima Aversa Araújo - em 

3 de outubro de 2019 - Atualizado às 16:19

A menina de nove anos, tímida, autista, foi encontrada morta, o rosto desfigurado, amarrada a uma árvore, em um parque na zona norte da cidade de São Paulo. O corpo teria sido descoberto por um adolescente de 12 anos. O jovem mudara-se havia poucas semanas para a mesma rua em que residia a garotinha: tornara-se seu companheiro de brincadeiras, conquistara a confiança da família, embora apresentasse problemas na escola. Esse adolescente ofereceu várias versões para a morte da menina, entre as quais, a de que ele teria presenciado o crime, e a de que ele mesmo a teria matado. Há o registro de uma câmera de segurança em que ele aparece, de mãos dadas com a criança, dirigindo-se ao parque. Muito ainda há a ser apurado, mas o jovem foi encaminhado, provisoriamente, a uma unidade da Fundação Casa.

Menores de 18 anos não praticam “crimes”, consoante a lei, mas “atos infracionais”, sujeitando-se a medidas protetivas e socioeducativas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente. O máximo de tempo de internação, em casos de atos muito graves ou violentos, é de três anos. Medidas conjuntas (juízo cível e criminal) costumam ser aventadas em hipóteses de distúrbios variados (intelectuais, comportamentais, emocionais), transtornos ou patologias mentais.

A crueldade se agiganta, sob muitos aspectos: a pouca idade da vítima, sua condição, a banalidade ou ausência de motivação, o estado em que se encontrava o corpo. Se tiver sido o adolescente o autor dos fatos, sozinho, ajudando ou ajudado por alguém, ressalta a quebra da confiança depositada nele pela vítima, bem como sua juventude. E a polêmica já se instalou.

Quer tenha sido ele, ou não, esses atos impiedosos marcam não só os familiares e amigos, mas todos os profissionais envolvidos, e atingem milhares de pessoas: quem mora perto, quem conhecia a menina e o adolescente, quem passa no parque, quem teve acesso à notícia, as autoridades, os especialistas em diversas áreas, os que são chamados a fazer algo, a esclarecer. Todos os que se identificam, ou se assombram, de alguma maneira, com a tragédia.

De um modo demasiadamente humano (como já escrevia Nietzsche), penso que, se vítimas, queremos justiça, mas se ofensores, queremos compreensão.

Amélia de Fátima Aversa Araújo

#aversaaraujoadvogados

Ilustração: “Passeio a cavalo”, 1884, William-Adolphe Bouguereau, Berkshire Museum, Pittsfield, Massachusetts, Estados Unidos.