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Bruxas, fantasmas e cia.

Autor - Amélia de Fátima Aversa Araújo - em 

31 de outubro de 2019 - Atualizado às 11:30

Celebração popular que se transformou ao longo dos séculos, mudou de significados e se espraiou mundo afora, o Dia das Bruxas parece, a cada ano, mais incorporado ao imaginário. De festival da colheita a culto aos mortos, tornou-se uma forma de trazer à tona, de maneira leve e informal, os medos humanos mais obscuros e insolúveis.

Houve época em que a simples menção a “bruxa”, ou “mago”, poderia enviar o incauto para uma estadia nas masmorras presididas pela inquisição medieval. Confundiam-se, então, crimes e pecados, e buscava-se o controle dos pensamentos, além das condutas.

Hoje, num Estado de Direito, infração penal deve ser o que ataca um bem jurídico, um valor ético-social, não o que é “diferente” ou contrário a certas inclinações filosóficas, religiosas ou morais.

Brincar com aspectos aterrorizantes ou insondáveis tornou-se aceitável para grande parcela da população: zumbis, vampiros, demônios, feiticeiras. Também faces grotescas (“serial killers”, corpos martirizados de vítimas de crimes) se aliam à representação do inexorável (a morte).

Os mortos povoam as fantasias, as pessoas “antecipam” o término da vida em suas vestimentas ensanguentadas, macilentas, cadavéricas, esqueléticas. Torna-se, o fim, mais aceitável?

Os esforços da ciência, hoje (mas não só), além do tratamento e cura de patologias variadas (ou justamente por isso), buscam a vida eterna. O ser humano quer uma vida terrena infindável.

Não me anima a ideia de um hitler ou um stalin (com minúsculas, pois o mal incorporado se torna substantivado) vivendo para sempre. Alguém duvida que seriam os primeiros a lograr a eternidade?

Isso, sim, dá medo.

Amélia de Fátima Aversa Araújo

#aversaaraujoadvogados

Ilustração: Bruxa de Endor (detalhe de “A sombra de Samuel invocada por Saul”), 1857, de Dmitry Martynov.