» Não era “serial”, nem “killer”
  

Não era “serial”, nem “killer”

Autor - Amélia de Fátima Aversa Araújo - em 

26 de novembro de 2019 - Atualizado às 11:35

Thomas Quick, sueco cujo nome verdadeiro é Sture Ragnar Bergwall, confessou ter matado 39 pessoas, de treze formas diferentes. Os relatos incluíam mutilações, crimes sexuais, canibalismo. Nos idos de 1990 e 2000, foi condenado por oito desses crimes. Nunca houve um corpo sequer, apenas um pedaço de “osso humano”, o qual se revelou, mais tarde, plástico.

Consta que era, na verdade, tudo falso, com o perdão da antinomia. Ele não matara ninguém, havia inventado tudo. Dependente de drogas, fazia terapia para “recuperar memórias”, enquanto recebia medicamentos psicotrópicos. Todos acreditavam no que ele “redescobria”, ou “relembrava”, com base em notícias de jornais, livros e filmes. Investigadores, terapeutas, policiais, juízes, todos acreditaram.

Em 2013, um trabalho ultra minucioso do jornalista sueco Hannes Råstam, e sua assistente Jenny Küttim, revelou a farsa. Todas as condenações por homicídio foram revistas, uma a uma, e anuladas. Esse é considerado o maior erro judiciário da Suécia. Hoje, Thomas Quick, quase septuagenário, está em liberdade.

As famílias das vítimas cujos casos não foram solucionados porque Quick confessou estão indignadas. A grandiloquência do mentiroso, inédita em sua extensão e duração, teve consequências amargas e práticas. Provavelmente, jamais serão descobertos os verdadeiros criminosos.

No Brasil, há o crime de “autoacusação falsa” (artigo 341, Código Penal), de menor potencial ofensivo. Trata-se da hipótese em que o sujeito atribui a si mesmo a prática de crime que não existiu ou que foi praticado por outrem. Os motivos podem variar: buscar salvar a pele de alguém (um parente ou amigo), saldar uma dívida, chamar a atenção, ser famoso ou distinguido de alguma maneira. Sempre há que se analisar se o agente é imputável, se houve coação, etc.

A sucessão de erros robustos e gritantes num sistema judicial bem estruturado tem levado a medidas de saneamento, mas, segundo os especialistas, de forma lenta e ainda insuficiente. Como o principal responsável pelo erro judiciário foi o próprio acusado, de maneira deliberada, intencional e calculada, foi-lhe negado qualquer ressarcimento.

Amélia de Fátima Aversa Araújo

#aversaaraujoadvogados

Ilustração: “O condenado”, 1879, Vladimir Yegorovich Makovsky, Museu Estatal Russo, São Petersburgo.