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Os filhos de Medeia

Autor - Amélia de Fátima Aversa Araújo - em 

21 de maio de 2021 - Atualizado às 15:37

Na mitologia grega, Medeia é uma feiticeira, filha do rei da Cólquida, neta do deus do sol Hélio, muitíssimo poderosa, contraditória, angustiada, apaixonada, trágica, cruel, vingativa, e está no centro de muitas narrativas que permanecem até hoje, principalmente a de Eurípedes.

Numa das passagens mais conhecidas, Medeia auxilia o herói Jasão, com incríveis encantamentos, nas tarefas para conquistar o “Velocino de Ouro”. Ela chega a matar e esquartejar o próprio irmão mais novo para atrasar a perseguição à nau Argo.

Medeia tem dois filhos com o marido Jasão. No momento em que Jasão a repudia para ficar com uma princesa, Medeia planeja uma terrível desforra. Além de matar a princesa prometida, Medeia, de modo calculista e atroz, mata os próprios filhos. Não foi um ataque ensandecido, mas um comportamento deliberado, ainda que carregado de dor e ódio, para causar o máximo de sofrimento possível ao marido.

“Complexo de Medeia”, inicialmente, foi uma locução usada, com vieses psicanalíticos, para mães que, diante do receio de perder o lugar, a beleza etc. para as filhas, as atormentavam e até as matavam. Depois, passou a se referir a quaisquer dos pais que matam os filhos.

Já na atualidade, depois de uma repaginada, e na esteira da tendência de se atribuírem nomes a conjuntos de características, sinais ou sintomas variados de processos patológicos, psicológicos etc., surgiu a expressão “Síndrome de Medeia” como designativa de “Síndrome de Alienação Parental”.

Síndrome de Alienação Parental (SAP) aponta uma condição psicológica causada pelo poder exercido de modo abusivo por um dos genitores sobre a criança. Nesse exercício, ocorre a desmoralização e a demonização de um dos genitores pelo outro, com a manipulação da consciência e dos sentimentos da criança, proibição de convívio, destruição de vínculos. É o desejo de retaliação de quem se sente ultrajado, depreciado, humilhado, normalmente após a separação conflituosa do casal. Trata-se de outro tipo de “morte”, matar o filho para o outro (pai ou mãe).

Aniquilar o amor que a criança sente pelo outro genitor é o que faz a Medeia moderna, destroçando-o, entre sentimentos de rejeição e fúria, prejudicando seu desenvolvimento psíquico, deixando marcas profundas, angustiosas, indeléveis.

A Medeia moderna mata, figurativamente. Às vezes, de modo literal.

Oportunamente, trataremos dos crimes ligados à alienação parental.

Amélia Aversa Araújo

aversaaraujo.com.br

#aversaaraujoadvogados

Ilustração: “Medeia”, detalhe, 1870, Anselm Feuerbach, Neue Pinakothek, Munique, Alemanha.